Aconteceu no Auditório do Complexo de Saúde de Aracruz (CSA), na manhã desta terça-feira (28), a 3ª Formação do Programa Saúde na Escola (PSE). A ação foi destinada a profissionais de escolas municipais de ensino, das Unidades Básicas de Saúde (UBS), Conselho Tutelar, Centro de Referência da Assistência Social (Cras) e equipe PAS, que puderam se instruir sobre a prevenção das violências, promoção da cultura de paz e direitos humanos.
Os assuntos em questão foram apresentados pela enfermeira da Vigilância Epidemiológica (Semsa), Lívia Roni Pignaton; pela delegada Dra. Amanda da Silva Barbosa (13ª Delegacia Regional); além da assistente social Fernanda Barros e da psicóloga Andressa Amorim, ambas da equipe PAS; e da psicóloga Laís Alves, do Cras de Guaraná.
A enfermeira Lívia Roni iniciou sua apresentação mostrando dados de como, muitas vezes, as mortes são causadas pela violência no Brasil. “Em nosso país, as violências e os acidentes representam a terceira causa de morte na população geral e a primeira na população de um ano de idade a 49 anos. Ou seja, jovens em nosso país morrem por causas externas, que, normalmente, são fatores evitáveis. Isso é impactante, pois a violência está cada vez mais banalizada”, enfatizou.
Com relação às notificações compulsórias, ou seja, ao registro no sistema enquanto agravo, Lívia mostrou quais são os tipos de violência que precisam ser informados no e-SUS, como a doméstica/intrafamiliar, sexual, autoprovocada, tráfico de pessoas, trabalho escravo e infantil e tortura, por exemplo.
Alguns conceitos de violência também foram destacados, como a autoprovocada, que é aquela praticada pela própria pessoa, compreendendo a ideação suicida, embora esta não seja objeto de notificação; a doméstica/intrafamiliar, que ocorre entre parceiros íntimos e membros da família; e a extrafamiliar/comunitária, que ocorre no ambiente social em geral, entre conhecidos ou desconhecidos. “Vale ressaltar que todo tipo de violência sexual, como assédio, estupro e pornografia infantil, deve ser notificado. Por isso, quando atendemos alguém que passou por esse tipo de violência, além das condutas clínicas necessárias, precisamos fazer esse registro no sistema de notificação”, explicou.
Outros dados importantes apresentados disseram respeito ao número de notificações de violência entre pessoas de 0 a 19 anos em Aracruz, entre os anos de 2019 e 2025, tanto autoprovocadas quanto sexuais, assim como à mortalidade por causas externas em Aracruz, em todas as idades, entre os anos de 2019 e 2026.
Experiências exitosas
Em seguida, a equipe PAS (Agrupamento 4) das Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) "Mário Leal Silva", "José Mambrini" e "Maria Inês Della Valentina", juntamente com o Cras de Guaraná, expôs suas experiências exitosas nas escolas, que muito contribuíram para a promoção da cultura de paz e dos direitos humanos. Para isso, desenvolveram diversas ações de combate à violência, ao bullying e de valorização da mulher, além de outras que serão abordadas no mês de maio, como o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes.
Elas apresentaram alguns dos materiais utilizados, como o superlivro “Missão Respeito”, considerado um guia prático e dinâmico para os alunos compreenderem os temas abordados; o “Semáforo do respeito e atitudes de respeito”; e os escudos de proteção, que incluem leis como a Maria da Penha, “Não é Não!”, “Minuto Seguinte” e Carolina Dieckmann, dentre outras, todas com dinâmicas e metodologias que auxiliam na cognição dos estudantes.
Como forma de fomentar ainda mais a aprendizagem, os alunos também puderam assistir a apresentações teatrais que simulavam situações do cotidiano envolvendo violência. “Pessoal, essas situações aqui demonstradas são dramatizações, nada aqui foi real. Portanto, não repliquem nem pratiquem em casa ou em outros ambientes. Respeitem uns aos outros, sempre!”, ressaltaram.
Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e de Proteção da Criança e do Adolescente
A delegada Dra. Amanda da Silva Barbosa, que está há 14 anos à frente da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e de Proteção da Criança e do Adolescente, afirmou que recebeu o convite para compartilhar um pouco de sua experiência e iniciou sua fala lembrando do caso do feminicídio da comandante da Guarda Civil Municipal de Vitória (ES), Dayse Barbosa, assassinada pelo namorado, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, em março deste ano, fato que a impactou profundamente.
“No dia em que soube de sua morte, fiquei profundamente abalada e tomada por uma grande tristeza. Isso me trouxe uma grande reflexão, e passei a me perguntar onde estamos inseridos nessa questão. Infelizmente, não temos visto uma redução desses casos, muito pelo contrário: há um aumento, inclusive na intensidade e na gravidade dessa violência”, disse.
De acordo com Amanda, em meio aos questionamentos sobre o que pode ser feito e como pensar fora da caixa, ela percebeu que, muitas vezes, a comunicação é direcionada apenas às mulheres. “Por isso, entendi que estamos errando no público-alvo. Precisamos de mais homens fazendo coro ao nosso lado, pois essa luta não é só nossa. É fundamental que homens de bem se mobilizem e compreendam a importância do seu engajamento enquanto sociedade”, frisou.
A delegada reforçou que é importante levar informação para que as mulheres saibam denunciar e conhecer a rede de proteção, mas destacou que a segurança pública não é responsabilidade exclusiva da polícia. “A Polícia Civil, que é investigativa, atua após o crime acontecer. Por isso, se queremos reduzir os casos de violência contra a mulher, precisamos agir de forma preventiva. Tenho essa consciência, e momentos como este são fundamentais para que vocês sejam multiplicadores, plantando sementes”, afirmou.
Ela também chamou a atenção para os riscos atuais relacionados ao uso excessivo de telas e redes sociais por crianças e adolescentes. Segundo ela, além do conteúdo muitas vezes desconhecido pelos pais, há prejuízos na aprendizagem, já que essas tecnologias têm contribuído para que muitos jovens apresentem dificuldades até mesmo na escrita habitual.
Ao final, os profissionais da educação, saúde e assistência social, após ouvirem os conceitos apresentados, também puderam compartilhar experiências e esclarecer dúvidas.