Seminário da Educação Infantil fomenta a implementação de ações voltadas à superação das desigualdades étnico-raciais e do racismo

Publicado em: 18 de maio de 2026
Texto: Renato Lana de Faria
Imagem: Divulgação
Seminário da Educação Infantil fomenta a implementação de ações voltadas à superação das desigualdades étnico-raciais e do racismo

A Secretaria Municipal de Educação (Semed) promoveu, nos turnos matutino e vespertino desta sexta-feira (15), no Plenário da Câmara Municipal, o Seminário da Educação Infantil, que debateu as relações étnico-raciais na infância. O momento foi mediado pela técnica pedagógica Daniela Reis de Jesus Rossoni, que apresentou o protocolo da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNERQ). Também houve relatos de experiências com a ex-professora da rede Jamile Lima e palestras com a assessora pedagógica da Aprende Brasil, Katia Costa.

A secretária Jenilza Spinassé participou da ação e deixou uma mensagem aos profissionais que lotaram o plenário. “Que energia boa encontro hoje! É um grande prazer estar aqui novamente com esse grupo potente, que é a base da educação do nosso município. Sintam-se todos empoderados, porque é o nosso fazer que certamente dirá e demonstrará o futuro de nossas crianças. E, neste dia tão importante, destinado à formação de vocês, discutiremos a equidade racial para mostrar que ainda temos muito a fazer. Precisamos cuidar de todos e de cada um, e sabemos que o dia a dia na escola não é fácil. O maior desafio está nas mãos de vocês, que precisam se atentar ao comportamento das crianças”, disse.

A técnica pedagógica Daniela Reis de Jesus Rossoni, que apresentou o protocolo do PNERQ, destacou que o documento não tem como objetivo criar qualquer forma de imposição ou intimidação. “Vale ressaltar que nosso protocolo não vem para causar qualquer tipo de intimidação. Sua principal função é oportunizar à criança e às demais pessoas a possibilidade de falarem que precisam de ajuda ou de serem representadas”, afirmou.

Ainda de acordo com Daniela, o objetivo é promover o letramento racial para que não haja necessidade de aplicar esse tipo de intervenção. “Sabemos que o racismo é crime e, por isso, precisamos educar nossos professores e crianças dentro dessa perspectiva. Esse documento não é direcionado apenas ao aluno que já entende essa questão, mas também aos pequenos que ainda não têm esse entendimento. A família também precisará desse letramento para ser acolhida, pois muitas vezes as pessoas não têm noção do crime que estão cometendo, acreditando que seja uma brincadeira, mas isso não é brincadeira”, ressaltou.

Relato de experiência

Jamile Lima, ex-professora da Rede Municipal de Ensino e pós-graduada em Educação Infantil e Anos Iniciais, além de Educação de Jovens e Adultos, fez um emocionante relato de experiência, contando como e em que momento de sua vida passou a se aceitar como é. “Eu não vim falar somente de uma transição capilar. É mais forte do que isso. É sobre minha identidade, sobre um reencontro, sobre eu me aceitar. Foi um reencontro com a resistência, uma transformação. Esse tema é sobre amor-próprio e é muito forte, porque, na minha infância, cresci vendo um padrão de beleza que não me representava. Cresci em uma família com pessoas de cabelo liso, ondulado e alguns cacheados, mas não se ouvia a palavra ‘crespo’. Só mais tarde, quando cresci e comecei a trabalhar na escola”, lembrou.

Jamile contou que cresceu ouvindo que seu cabelo era feio e comparado a diversas coisas. “Diziam que meu cabelo parecia uma espiga de milho, um bombril. Frases familiares que ficaram marcadas na minha vida. Isso não acontece apenas dentro da família, mas também na sociedade, que reforça esse olhar. Porém, dentro da minha casa era muito mais dolorido, porque cresci ouvindo que meu cabelo precisava ser alisado ou ficar preso, e eu não entendia o motivo”, relatou.

Por isso, durante a adolescência, passou a usar o cabelo liso. “Mas, no fundo, eu estava me privando de muitas coisas, como sair para um aniversário. Achava que só me sentiria feliz se estivesse com o cabelo liso, mas não conseguia me reconhecer. E, quando meu marido me disse que eu precisava me reconectar para buscar minhas raízes e minha genética, comecei a me aprofundar sobre a questão racial. Foi então que comecei a me aceitar”, afirmou.

Jamile contou que foi a escola que a ajudou nessa busca por identidade, quando as próprias crianças passavam a mão em seu cabelo e diziam que ela era linda. “Quando comecei a dar aula, em 2015, pude ensinar crianças para a vida. E, quando elas me diziam que eu era linda, aquilo mexia comigo, porque dentro de mim havia algo que me incomodava. Foi aí que entendi que era a hora de me escolher. Foi um processo que não foi fácil, por causa dos traumas e do medo. Por isso, em relação às nossas crianças, precisamos apoiá-las, aceitá-las e acolhê-las, coisas que eu não tive na minha infância”.

Professora antirracista: desafios e afetos

A assessora pedagógica da Aprende Brasil, Katia Costa, iniciou sua palestra propondo uma dinâmica com o público. Em duplas, os participantes foram convidados a cantar “Funga Aláfia”, tradicional canção e dança de boas-vindas e acolhimento originária da África Ocidental, frequentemente associada à cultura iorubá, da Nigéria, utilizada para saudar pessoas e celebrar a paz, a amizade e o afeto. “Axé. Energia vital. Outro valor afro-brasileiro. Vamos falar um pouco dos motivos que me trazem aqui, que são as leis 10.639 e 11.645. Precisamos falar disso e entender o quanto foi necessário, porque ainda precisamos colocar isso em prática, sendo que há lugares onde esse debate ainda não chegou”, afirmou.

A Lei n.º 10.639/2003 é o marco legal que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas brasileiras de ensino fundamental e médio, além de instituir o Dia da Consciência Negra. Já a Lei n.º 11.645/2008 alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) para tornar obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas públicas e privadas de ensino fundamental e médio no Brasil.

“Precisamos nos atentar, porque esse é um dever ético e político, para que essas discussões cheguem a todos os lugares onde são necessárias. Para cada criança, adulto e para quem mais precisar. Essa primeira lei, que já tem mais de 20 anos, tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana. Posteriormente, em 2008, houve a atualização, acrescentando as questões indígenas. Isso caracteriza a formação dos brasileiros a partir desses dois grupos étnicos, resgatando suas contribuições nas áreas social, econômica e política pertinentes à nossa história”, destacou.

De acordo com Katia, essas leis mostram a necessidade de repensar o currículo escolar, ampliando os saberes cada vez mais. “O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, está no calendário escolar. Em minha experiência, chegamos a criar equipes multidisciplinares, com pessoas de referência dentro das escolas, para promover essas discussões e criar novas possibilidades”, explicou.

Com base nos relatos e palestras, professores, pedagogos e diretores da Educação Infantil tiveram, durante o seminário, a oportunidade de conhecer e refletir sobre práticas que contribuem para a construção de um ambiente escolar mais acolhedor e antirracista.

 
 
 

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